Haroldo não se sentia mais
desejado pela mulher, a bela Gertrudez. Havia tempos que os carinhos
e mostras de tesão haviam cessado e Haroldo começava a se preocupar
com isso. Como bom católico pôs a culpa em si mesmo e sua aparência
lastimável, Haroldo já não tinha a barriga de outrora, onde se
percebia a musculatura sob a pele rígida, tampouco ostentava uma
cabeleira com a qual pudesse fazer um corte moderno e descolado e,
até mesmo suas piadas tinham ficado velhas. Mas Haroldo não se fez
de rogado, não estava disposto a perder aquele um metro e sessenta e
dois de mau caminho que era sua mulher, com seus olhos castanhos
esverdeados, cabelos longos e negros e que, mesmo depois de dar a luz
ao segundo filho, mantinha curvas capazes de causar vertigem em
qualquer um que apreciasse o sexo feminino, então ele fez o que todo
homem que tenta resgatar sua juventude ( e desejo da amada) faz
nessas horas, começou a se exercitar.
O primeiro passo de Haroldo
foi jogar a preguiça para escanteio, acordar antes das seis da manhã
e começar a correr. Todos os dias ele trilhava a passos lentos, mas
cadenciados suados seis quilômetros, fato que começou a melhorar seu
fôlego e aumentou sua disposição no trabalho (onde passava os dias
sentado agendando pagamentos e cadastrando notas fiscais), sua
melhora de vigor e especto ficaram tão gritantes, que os colegas (em
especial AS colegas) fizeram questão de notar e parabeniza-lo pela
atitude, o que o fez dar um passo adiante e comprar uma bicicleta
para complementar a malhação.
Haroldo agora corria seus seis
quilômetros matutinos e acabava suas tardes pedalando mais dez em
sua bicicleta. Sua forma foi se redesenhando de uma pera mal colhida
para um belo triângulo invertido, o que acendeu, em uma certa tarde
de verão, o fogo apagado a tempos de sua mulher que o surpreendeu ao
envolve-lo por trás com os braços, enquanto ele estava à mesa
,calculando os pagamentos do cartão de crédito, e o arrepiar com
delicados beijos e mordidas na nuca. Haroldo entendeu os sinais e
precipitou-se para o quarto com Gertrudez, já tendo em mente todas
as pequenas safadezas que seu novo fôlego permitiria.
Ao chegar no quarto do casal,
o filho caçula dormia na cama que serviria de palco para aquele
momento de desejo, sem pensar correram para o quarto das crianças e
lá encontraram o mais velho no oitavo sono e sem querer sair de casa
ou chamar a atenção, partiram para o banheiro onde poderiam esfriar
aquele desejo de pé em baixo do chuveiro. Haroldo se saiu bem,
auxiliado pelo desejo a muito contido da mulher, a fez chegar ao
clímax em minutos e se sentiu o maior dos homens com isso; no
entanto, seus exercícios cotidianos haviam deixado dolorosas lesões
nas pernas de nosso herói, que no ato de fazer amor de pé começou
a sentir e com isso não alcançando o orgasmo.
Foi o suficiente para
Gertrudez ter certeza do que a muito desconfiava, o marido tinha uma
amante. Nada mais óbvio, afinal porque daquela malhação diária,
com suas corridas e passeios de bicicleta intermináveis? A ira se
apossou daquela mulher, que como toda a baixinha se pôs a bater no
marido e o chamar de sem vergonha e canalha o colocando para dormir
no sofá por quase duas semanas. Ao término desse tempo, Gertrudez
que tinha uma criação muito menos católica que o marido, viu que a
safadeza deste talvez fosse responsabilidade sua, pois a tempos não
o via mais como homem e ela mesmo não se via, por vezes, como
mulher, então não se fez de rogada, jogou a preguiça para
escanteio, começou a acordar cedo, comprou uma bicicleta e chamou o
marido para dividir a cama novamente.
Hoje, um ano depois, Haroldo e
Gertudez são outros. O vigor de ambos causa inveja a garotos de
dezesseis anos e suas formas os fazem passar por menos de vinte.
Gertudez perdoou a escapadinha imaginária de Haroldo e o olha com
desejo o tempo todo, Ele tratou sua lesão na perna e nunca mais
permitiu que as crianças dormissem no quarto do casal, parte que se
tornou assídua para Haroldo e Gertudez, que continuam sua malhação
conjunta agora cada vez mais isolados no quarto, mas por via das
dúvida o casal mandou instalar uma banheira, afinal, nunca se sabe.


