sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Os exercícios de Haroldo



Haroldo não se sentia mais desejado pela mulher, a bela Gertrudez. Havia tempos que os carinhos e mostras de tesão haviam cessado e Haroldo começava a se preocupar com isso. Como bom católico pôs a culpa em si mesmo e sua aparência lastimável, Haroldo já não tinha a barriga de outrora, onde se percebia a musculatura sob a pele rígida, tampouco ostentava uma cabeleira com a qual pudesse fazer um corte moderno e descolado e, até mesmo suas piadas tinham ficado velhas. Mas Haroldo não se fez de rogado, não estava disposto a perder aquele um metro e sessenta e dois de mau caminho que era sua mulher, com seus olhos castanhos esverdeados, cabelos longos e negros e que, mesmo depois de dar a luz ao segundo filho, mantinha curvas capazes de causar vertigem em qualquer um que apreciasse o sexo feminino, então ele fez o que todo homem que tenta resgatar sua juventude ( e desejo da amada) faz nessas horas, começou a se exercitar.

O primeiro passo de Haroldo foi jogar a preguiça para escanteio, acordar antes das seis da manhã e começar a correr. Todos os dias ele trilhava a passos lentos, mas cadenciados suados seis quilômetros, fato que começou a melhorar seu fôlego e aumentou sua disposição no trabalho (onde passava os dias sentado agendando pagamentos e cadastrando notas fiscais), sua melhora de vigor e especto ficaram tão gritantes, que os colegas (em especial AS colegas) fizeram questão de notar e parabeniza-lo pela atitude, o que o fez dar um passo adiante e comprar uma bicicleta para complementar a malhação.

Haroldo agora corria seus seis quilômetros matutinos e acabava suas tardes pedalando mais dez em sua bicicleta. Sua forma foi se redesenhando de uma pera mal colhida para um belo triângulo invertido, o que acendeu, em uma certa tarde de verão, o fogo apagado a tempos de sua mulher que o surpreendeu ao envolve-lo por trás com os braços, enquanto ele estava à mesa ,calculando os pagamentos do cartão de crédito, e o arrepiar com delicados beijos e mordidas na nuca. Haroldo entendeu os sinais e precipitou-se para o quarto com Gertrudez, já tendo em mente todas as pequenas safadezas que seu novo fôlego permitiria.

Ao chegar no quarto do casal, o filho caçula dormia na cama que serviria de palco para aquele momento de desejo, sem pensar correram para o quarto das crianças e lá encontraram o mais velho no oitavo sono e sem querer sair de casa ou chamar a atenção, partiram para o banheiro onde poderiam esfriar aquele desejo de pé em baixo do chuveiro. Haroldo se saiu bem, auxiliado pelo desejo a muito contido da mulher, a fez chegar ao clímax em minutos e se sentiu o maior dos homens com isso; no entanto, seus exercícios cotidianos haviam deixado dolorosas lesões nas pernas de nosso herói, que no ato de fazer amor de pé começou a sentir e com isso não alcançando o orgasmo.

Foi o suficiente para Gertrudez ter certeza do que a muito desconfiava, o marido tinha uma amante. Nada mais óbvio, afinal porque daquela malhação diária, com suas corridas e passeios de bicicleta intermináveis? A ira se apossou daquela mulher, que como toda a baixinha se pôs a bater no marido e o chamar de sem vergonha e canalha o colocando para dormir no sofá por quase duas semanas. Ao término desse tempo, Gertrudez que tinha uma criação muito menos católica que o marido, viu que a safadeza deste talvez fosse responsabilidade sua, pois a tempos não o via mais como homem e ela mesmo não se via, por vezes, como mulher, então não se fez de rogada, jogou a preguiça para escanteio, começou a acordar cedo, comprou uma bicicleta e chamou o marido para dividir a cama novamente.

Hoje, um ano depois, Haroldo e Gertudez são outros. O vigor de ambos causa inveja a garotos de dezesseis anos e suas formas os fazem passar por menos de vinte. Gertudez perdoou a escapadinha imaginária de Haroldo e o olha com desejo o tempo todo, Ele tratou sua lesão na perna e nunca mais permitiu que as crianças dormissem no quarto do casal, parte que se tornou assídua para Haroldo e Gertudez, que continuam sua malhação conjunta agora cada vez mais isolados no quarto, mas por via das dúvida o casal mandou instalar uma banheira, afinal, nunca se sabe.


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