O nome do primeiro era Wesley
Antônio. Tinha 21 anos e era Wesley por parte da mãe, que achava
que nome estrangeiro era moderno e Antônio, por parte do pai,na
verdade uma homenagem ao pai de seu pai, que como seu "coroa"
costumava dizer quando bebia domingo ao meio dia, ou segunda pela
manhã ou terça no meio da tarde (não havia horário certo), era um
homem de verdade, do tipo que não baixava a cabeça e não levava
desaforo para casa (Embora também não levasse dinheiro ou comida);
Wesley Antônio vivia na periferia e de dia jogava conversa fora nas
esquinas, ele gostava de dinheiro, de Funk ostentação, carros
rebaixados e com som potente, mulheres de bunda e peitos grandes; a
noite Wesley gostava de ruas desertas e escuras e de gente com cara
de vítima para lhe dar dinheiro, tênis, celular e tudo que tivesse
algum valor.
O nome do outro era Rogério.
Tinha 37 anos e seu nome foi um acordo diplomático entre seus pais,
onde sua mãe queria Roberto e o seu pai Valério e, nenhum
suportava nomes compostos. Rogério vivia na periferia e de dia
trabalhava em uma empresa de contabilidade emitindo notas, fechando
caixas, calculando impostos e tudo mais que a vida interessante de
contador poderia proporcionar, ele gostava de filmes do Tarantino,
Livros de ficção científica, pizza, de seus dois filhos e de sua
mulher (que tinha tudo do tamanho que ele gostava e se esses tamanhos
mudassem ele tinha certeza de que gostaria também); a noite Rogério
gostava de ficar em casa e fazer qualquer coisa que não tivesse a
mínima relação com contabilidade.
A primeira vez que os dois se
encontraram foi em uma chuvosa noite de sexta-feira, quando Rogério
voltava mais tarde do trabalho e Wesley Antônio começava seu
expediente mais cedo. Rogério, que havia descido do ônibus quatro
paradas antes, (porque algum gênio colocou a film escuro dos vidros
laterais do veículos virados) vinha com uma das mãos na testa para
se proteger da chuva que batia de frente, quando viu uma moto de 150
cilindradas, com um homem de capacete verde, que vinha em sua direção
com o barulho de que deve trocar a marcha e acelerando como se o
chamasse para um pega; era Wesley, que passou por ele o encarando e
gritando palavrões e ameaças ( em seus anos de assaltos , Wesley
havia percebido que as vítimas promissoras sempre ficavam
paralisadas quando agia assim) , diante disso, Rogério diminuiu o
passo e fez uma cara de pavor, era a deixa para Wesley, que voltou e
parou a seu lado dizendo:
- O que que foi? Por que tavas
me encarando?
- En-encarando? Eu nem te
vi...nem te conheço. (disse Rogério gaguejando meio sem voz)
- Tu acha que eu sou moleque?
(disse Wesley puxando o 38 da cintura)
- Na-Não...Q-Que isso
cara...? (grunhiu Rogério)
- Sem conversinha, o celular e
a carteira.
- O-olha..e-eu..
-CALA A BOCA..O CELULAR E A
CARTEIRA SEU MERDA (disse Wesley que gostava dessa sensação de
poder)
De cabeça baixa, Rogério
entregou ambos à Wesley, que ainda colocou a arma no seu olho e
disse:
-Da próxima vez eu explodo
essa tua cara!
E saiu acelerando contente
consigo mesmo por ter começado bem sua noite.
Em um lugar seguro, Wesley
estaciona a moto, tira o capacete e vai analisar seus primeiros
ganhos da noite. Liga o celular, que para sua decepção era bem
velho e vê que não tem nenhum número na agenda, por curiosidade dá
uma olha nas fotos e se depara com apenas uma, um enorme, veiudo e
ereto pênis. Wesley fica sem entender e uma onda de raiva fez com
que ele sentisse seu coração pulsando dentro de seus tímpanos e
seus dentes se encontraram em sinal de raiva, "veado filho da
puta" pensou, desligou o celular e colocou-o no bolso. Pegou
então a carteira, que era bem fina e velha, abriu-a e não haviam
documentos, cartões de crédito e nem dinheiro, apenas um papel
dobrado ao meio, abriu e encontrou a seguinte mensagem:
"Seu grande merda.
Você nunca será nada! Nunca terá o dinheiro para bancar o ator de
novela, nunca vai namorar uma modelo, nunca vai ser respeitado de
verdade. você é só um bosta covarde e vagabundo, que tem medo de
trabalhar, que nunca conseguiu fazer nada sem o consentimento dos
amigos e que nunca pensou em ser diferente das pessoas que a vida
colocou na tua volta . Espero que pelo menos você saiba ler para
entender que a unica coisa boa que poderias fazer era dar alegria ao
mundo morrendo e espero de coração que quando as balas da polícia
acertarem teu corpo e te restar pouco tempo de vida, tu lembres desse
bilhete.
OBS: Foda-se seu ninguém
;) "
Wesley tremeu de ódio. Rasgou
o bilhete e saiu a toda velocidade para a rua onde tinha encontrado
Rogério, queria matar o desgraçado (ou qualquer outro azarado que
passasse seu caminho), mas por sorte a forte chuva espantou suas
vítimas e o fez voltar para casa apenas com um gosto amargo de ódio
na boca e um desaforo preso na garganta.
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Três meses se passaram depois
daquela noite. Rogério ficou famoso nas rodas de colegas do serviço
e entre seus parentes devido à sacanagem que fez com o ladrãozinho,
muitos haviam lhe cumprimentado com uma pontinha de inveja por não
terem pensado naquela pegadinha antes e, muitos, também começaram a
usar um celular reserva com uma foto pervertida e uma carteira falsa
com um bilhete desaforado e sonhavam com a próxima vez que seriam
assaltados. Rogério achava engraçado, se sentiu triunfante no
início, a ideia havia lhe ocorrido quando um ano e meio antes ele
fora assaltado e perdera além do celular novinho, parte do dinheiro
que iria para as contas, aquele ato era uma vingança contra um mundo
sem segurança pensou... mas depois de três meses era só uma vaga
lembrança engraçada.
Para Wesley Antônio aquilo
era pessoal. Em algum lugar da cidade um filho da puta desaforado
deveria estar rindo da cara dele meses a fio... e o pior é que nunca
mais tinha encontrado o cara, mas sua fé na vingança nunca diminuiu
e dia sim, dia também ele passava pelo local procurando o
desgraçado, até que em um belo sábado , no final da tarde seu
sonho se tornou realidade.
Estava ali , vindo em sua
direção de mão dada a um gurizinho, era ele, aquele desgraçado,
Wesley nunca esqueceria aquela cara de imbecil, era só atravessar a
rua para olhar bem no fundo dos olhos do desgraçado e falar "E
agora? Quem tá rindo seu merda?" e meter uma bala naquela cara
de idiota; tanto tempo e só uma rua separava ele e a oportunidade de
tirar satisfação. Acelerou sem olhar, o cano na moto gritou,
chamando a atenção de Rogério que viu um farol vindo em sua
direção e depois um barulho terrível de metal se chocando, ossos
quebrando, vidro estilhaçando e carne batendo contra o solo. A rua
que separava Wesley de sua vingança era preferencial e na hora que
ele acelerou para chegar perto de Rogério, uma caminhonete,
rebaixada , de som potente e dirigida por uma bela bunduda e peituda
mulher o atingiu a 80 km/h no flanco esquerdo, o arremessando à
metros juntamente com sua moto ( metade da distância de seu
capacete, que não estava devidamente amarrado) e caindo de cara
contra o meio fio formando uma pequena poça de sangue.
Wesley não viu quando Rogério
e o filho vieram correndo em seu socorro, Não viu o desespero da
mulher que dirigia o carro, nem o estado que ficou sua moto, nem
mesmo viu a ambulância que chegou tarde de mais; A única e última
coisa que ele conseguiu ver naquela hora foi o trecho do bilhete onde
se dizia:
"...Espero que quando
te restar pouco tempo de vida tu te lembres desse bilhete."
Rogério ainda chegou perto de
Wesley e falou:
- Moço, aguenta firme a ajuda
vai chegar.
Ao que Wesley respondeu de
forma inaudível:
- Filho da puta vidente do
cacet* ( e como diria Didi "e morreu")
Rogério voltou para casa
chocado com a cena e com o filho assustado pelo que havia visto. Nos
meses que se passaram sua história foi perdendo a graça e acabou
sendo esquecia, mas se ele soubesse que um simples bilhete poderia
ter o poder de mudar assim a vida de uma pessoa (ou a morte), com
certeza faria um para si mesmo... e seria um bilhete de loteria.



