sábado, 9 de abril de 2016

O ASSALTANTE, O CONTADOR E O BILHETE


O nome do primeiro era Wesley Antônio. Tinha 21 anos e era Wesley por parte da mãe, que achava que nome estrangeiro era moderno e Antônio, por parte do pai,na verdade uma homenagem ao pai de seu pai, que como seu "coroa" costumava dizer quando bebia domingo ao meio dia, ou segunda pela manhã ou terça no meio da tarde (não havia horário certo), era um homem de verdade, do tipo que não baixava a cabeça e não levava desaforo para casa (Embora também não levasse dinheiro ou comida); Wesley Antônio vivia na periferia e de dia jogava conversa fora nas esquinas, ele gostava de dinheiro, de Funk ostentação, carros rebaixados e com som potente, mulheres de bunda e peitos grandes; a noite Wesley gostava de ruas desertas e escuras e de gente com cara de vítima para lhe dar dinheiro, tênis, celular e tudo que tivesse algum valor.
O nome do outro era Rogério. Tinha 37 anos e seu nome foi um acordo diplomático entre seus pais, onde sua mãe queria Roberto e o seu pai Valério e, nenhum suportava nomes compostos. Rogério vivia na periferia e de dia trabalhava em uma empresa de contabilidade emitindo notas, fechando caixas, calculando impostos e tudo mais que a vida interessante de contador poderia proporcionar, ele gostava de filmes do Tarantino, Livros de ficção científica, pizza, de seus dois filhos e de sua mulher (que tinha tudo do tamanho que ele gostava e se esses tamanhos mudassem ele tinha certeza de que gostaria também); a noite Rogério gostava de ficar em casa e fazer qualquer coisa que não tivesse a mínima relação com contabilidade.
A primeira vez que os dois se encontraram foi em uma chuvosa noite de sexta-feira, quando Rogério voltava mais tarde do trabalho e Wesley Antônio começava seu expediente mais cedo. Rogério, que havia descido do ônibus quatro paradas antes, (porque algum gênio colocou a film escuro dos vidros laterais do veículos virados) vinha com uma das mãos na testa para se proteger da chuva que batia de frente, quando viu uma moto de 150 cilindradas, com um homem de capacete verde, que vinha em sua direção com o barulho de que deve trocar a marcha e acelerando como se o chamasse para um pega; era Wesley, que passou por ele o encarando e gritando palavrões e ameaças ( em seus anos de assaltos , Wesley havia percebido que as vítimas promissoras sempre ficavam paralisadas quando agia assim) , diante disso, Rogério diminuiu o passo e fez uma cara de pavor, era a deixa para Wesley, que voltou e parou a seu lado dizendo:
- O que que foi? Por que tavas me encarando?
- En-encarando? Eu nem te vi...nem te conheço. (disse Rogério gaguejando meio sem voz)
- Tu acha que eu sou moleque? (disse Wesley puxando o 38 da cintura)
- Na-Não...Q-Que isso cara...? (grunhiu Rogério)
- Sem conversinha, o celular e a carteira.
- O-olha..e-eu..
-CALA A BOCA..O CELULAR E A CARTEIRA SEU MERDA (disse Wesley que gostava dessa sensação de poder)
De cabeça baixa, Rogério entregou ambos à Wesley, que ainda colocou a arma no seu olho e disse:
-Da próxima vez eu explodo essa tua cara!
E saiu acelerando contente consigo mesmo por ter começado bem sua noite.

Em um lugar seguro, Wesley estaciona a moto, tira o capacete e vai analisar seus primeiros ganhos da noite. Liga o celular, que para sua decepção era bem velho e vê que não tem nenhum número na agenda, por curiosidade dá uma olha nas fotos e se depara com apenas uma, um enorme, veiudo e ereto pênis. Wesley fica sem entender e uma onda de raiva fez com que ele sentisse seu coração pulsando dentro de seus tímpanos e seus dentes se encontraram em sinal de raiva, "veado filho da puta" pensou, desligou o celular e colocou-o no bolso. Pegou então a carteira, que era bem fina e velha, abriu-a e não haviam documentos, cartões de crédito e nem dinheiro, apenas um papel dobrado ao meio, abriu e encontrou a seguinte mensagem:

"Seu grande merda. Você nunca será nada! Nunca terá o dinheiro para bancar o ator de novela, nunca vai namorar uma modelo, nunca vai ser respeitado de verdade. você é só um bosta covarde e vagabundo, que tem medo de trabalhar, que nunca conseguiu fazer nada sem o consentimento dos amigos e que nunca pensou em ser diferente das pessoas que a vida colocou na tua volta . Espero que pelo menos você saiba ler para entender que a unica coisa boa que poderias fazer era dar alegria ao mundo morrendo e espero de coração que quando as balas da polícia acertarem teu corpo e te restar pouco tempo de vida, tu lembres desse bilhete.

OBS: Foda-se seu ninguém ;) "

Wesley tremeu de ódio. Rasgou o bilhete e saiu a toda velocidade para a rua onde tinha encontrado Rogério, queria matar o desgraçado (ou qualquer outro azarado que passasse seu caminho), mas por sorte a forte chuva espantou suas vítimas e o fez voltar para casa apenas com um gosto amargo de ódio na boca e um desaforo preso na garganta.

                                                    ** ** ** ** ** ** ** ** **

Três meses se passaram depois daquela noite. Rogério ficou famoso nas rodas de colegas do serviço e entre seus parentes devido à sacanagem que fez com o ladrãozinho, muitos haviam lhe cumprimentado com uma pontinha de inveja por não terem pensado naquela pegadinha antes e, muitos, também começaram a usar um celular reserva com uma foto pervertida e uma carteira falsa com um bilhete desaforado e sonhavam com a próxima vez que seriam assaltados. Rogério achava engraçado, se sentiu triunfante no início, a ideia havia lhe ocorrido quando um ano e meio antes ele fora assaltado e perdera além do celular novinho, parte do dinheiro que iria para as contas, aquele ato era uma vingança contra um mundo sem segurança pensou... mas depois de três meses era só uma vaga lembrança engraçada.
Para Wesley Antônio aquilo era pessoal. Em algum lugar da cidade um filho da puta desaforado deveria estar rindo da cara dele meses a fio... e o pior é que nunca mais tinha encontrado o cara, mas sua fé na vingança nunca diminuiu e dia sim, dia também ele passava pelo local procurando o desgraçado, até que em um belo sábado , no final da tarde seu sonho se tornou realidade.
Estava ali , vindo em sua direção de mão dada a um gurizinho, era ele, aquele desgraçado, Wesley nunca esqueceria aquela cara de imbecil, era só atravessar a rua para olhar bem no fundo dos olhos do desgraçado e falar "E agora? Quem tá rindo seu merda?" e meter uma bala naquela cara de idiota; tanto tempo e só uma rua separava ele e a oportunidade de tirar satisfação. Acelerou sem olhar, o cano na moto gritou, chamando a atenção de Rogério que viu um farol vindo em sua direção e depois um barulho terrível de metal se chocando, ossos quebrando, vidro estilhaçando e carne batendo contra o solo. A rua que separava Wesley de sua vingança era preferencial e na hora que ele acelerou para chegar perto de Rogério, uma caminhonete, rebaixada , de som potente e dirigida por uma bela bunduda e peituda mulher o atingiu a 80 km/h no flanco esquerdo, o arremessando à metros juntamente com sua moto ( metade da distância de seu capacete, que não estava devidamente amarrado) e caindo de cara contra o meio fio formando uma pequena poça de sangue.
Wesley não viu quando Rogério e o filho vieram correndo em seu socorro, Não viu o desespero da mulher que dirigia o carro, nem o estado que ficou sua moto, nem mesmo viu a ambulância que chegou tarde de mais; A única e última coisa que ele conseguiu ver naquela hora foi o trecho do bilhete onde se dizia:

"...Espero que quando te restar pouco tempo de vida tu te lembres desse bilhete."

Rogério ainda chegou perto de Wesley e falou:

- Moço, aguenta firme a ajuda vai chegar.

Ao que Wesley respondeu de forma inaudível:

- Filho da puta vidente do cacet* ( e como diria Didi "e morreu")


Rogério voltou para casa chocado com a cena e com o filho assustado pelo que havia visto. Nos meses que se passaram sua história foi perdendo a graça e acabou sendo esquecia, mas se ele soubesse que um simples bilhete poderia ter o poder de mudar assim a vida de uma pessoa (ou a morte), com certeza faria um para si mesmo... e seria um bilhete de loteria.


Nenhum comentário:

Postar um comentário